
Era tarde, a lua cumprira metade do seu trajeto, não haviam estrelas
no céu, provavelmente haviam sido roubadas e colocadas nos ombros dos
casacos verdes, estas estrelas vigiavam a noite, em avenidas, praças,
ruas, vielas e becos.
Eu caminhava na penumbra evitando que olhos me farejassem, caminhava com cautela afim de evitar ruídos, pois as paredes tinham olhos que vigiavam os
desprovidos de sorte.
Subitamente e em silêncio as cores modificam o clima da noite, o vermelho e
o azul esquentam meu sangue e esfriam ainda mais a noite, com a barca surgindo
em popa, me lanço em disparada ao beco sem exitar vigiar a retaguarda, na
esperança de não ser visto, me abaixo buscando exílio atrás de uma lata de lixo.
O lixo fede podridão, o beco fede podridão, aliás, esta era fede podridão.
Enquanto isso, a veraneio vai se distanciando e indo embora, porém, infelizmente
ainda há no beco aquele dilacerante odor.
Ergo-me e percebo o panorama daquele lugar, me deparo com um enorme galpão,
há algumas luzes no seu interior, ainda estou em catarse. O céu começa a chorar, um leve e
suave pranto, isso me reenergiza e corro para a entrada do galpão, entro vagarosamente e percebo que o galpão realmente não está vazio, ouço
burburinhos. O galpão possui diversas galerias, empilhamentos de caixas e diversas
prateleiras, criando assim corredores diversos, caminho, escolhendo aleatoriamente
o caminho q devo seguir, passos cautelosos, sigilosos. Vejo uma porta, aproximo
com certa exitação e aguço minha audição para saber o que há, ouço vozes de homens
rindo, gargalhando, ouço sons de pancadas e mais ao fundo deste show, quase que abafado um choro feminino. A curiosidade me dilacera, tento espiar pela fechadura,
aos poucos as imagens vão se formando e vejo a cena mais horripilante, demônios
mascarados de homens estuprando uma mulher, enquanto seus orifícios eram violados, socos acertavam seu rosto e sua cabeça, apagavam bitucas de cigarro em suas costas, ela tentava reagir, tentava sair, mas sua força de nada servia. Gozavam
nela e gozavam dela, em uma ultima tentativa, ela conseguiu morder um deles, o
mesmo virou-se com fúria e começou a soca-la, foram tantos golpes que nem pude contar, o som da mão se chocando brutalmente com o rosto terrível, pavoroso, um som seco e único, ecoava em minha mente como uma vitrola estragada, pensei em
ajuda-la, mas meu medo petrificara minhas pernas e ali fiquei estático.
Quando o animal terminou seu ataque, o comparsa tocou o pescoço dela e disse:
"Já era, foi passear na casa de Hades." Senti um calafrio na espinha, incisivo,
gélido. O animal sorriu, puxou suas pernas e começou a violentar os restos
daquela mulher. Desesperado, me levantei e corri o mais depressa possível evitando
fazer qualquer barulho, até encontrar alguma saída, logo a encontrei, me escondi
atrás de uma caixa, vi dezenas de camburões descarregando pessoas, a socos e bicudas, homens e mulheres, todos algemados, machucados e vestindo roupas vermelhas.
Não resisti, diante a realidade chorei, tive medo do futuro e desejei a morte,
para nunca mais ter que assistir à outra cena cotidiana como aquela.
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