segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ENTÃO A BARRAGEM ROMPEU




A fumaça entre meus dedos
dança lentamente,
ao ritimo ditado pelo meu lamento.
As horas não passam e a solidão
me seduz com seus olhos profundos,
agarrada EM minha alma como uma namorada
ciumenta.
A mente não sabe mais o que é real,
o que é a mentira, tantas vozes iguais,
sorrisos cheio de dentes falsos.
Há um tumor no peito, tão negro e ferido
quanto uma alma amargurada.
Estou em três lugares diferentes, mas ainda sim
sentado na mesma cadeira com a mesma fumaça nos
dedos.
A barragem rompeu, não tem pra onde correr,
é só sentar e esperar minha casa se afogar
junto com meus olhos, sem brilho, sem esperança.
Sequelas sempre me levaram ao mesmo lugar, ao mesmo
tempo e a mesma dor consumida pelo orgulho perdido.
Atacado e roubado pelas costas, sem reagir, apenas
o chão se aproximando do meu rosto.
Não quero justiça, não quero perdoar, não quero vingança,
o esquecimento é o caminho mais fácil e mais difícil.
Não queria ter 400 anos, desejo a ignorância, é tão
mais simples ser a massa, é tão mais simples ser controlado,
é tão mais simples não esperar nada de ninguém.
Mas não adianta, a barragem já rompeu e me afogo.
Ainda estou sentado na mesma cadeira, com a mesma fumaça
entre os dedos, mas já revivi dois milênios de vida
e sempre chego ao mesmo lugar, sempre indagado pelas mesmas
questões, com respostas simples, mas sem aceitação, sem perdão.
É fácil enxergar o futuro, estar preparado para as certezas
incertas, mas viver estes futuros sempre me acertam com força
e intensidade desproporcional e a barragem rompe, levando
embora minha divindade e me deixando mais humano, mais sábio,
mais quebrado, mais ferido, mais sequelado e aos poucos,
meu anjo se torna mais demônio e quando isso acontecer,
pra onde vocês vão nadar? Pois a barragem já cedeu e não haverão
montanhas suficientes pra todas vocês.

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